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Café com LetrasRonaldo já havia me conquistado há seis anos com o Livro de contos A Faca. Dois anos depois, quando lançou o Livro dos Homens virei fã de vez. Os contos são intrigantes e construídos numa linguagem acessível a qualquer um, universalmente. As histórias são todas comuns, factíveis, possíveis de serem vivenciadas em qualquer lugar. E prendem como ninguém. Eu, que já tenho tendências notívagas, me pego lendo ávidamente cada página enquanto o sol nasce em minha janela.

Em Livro dos Homens, chove na maioria dos contos e neles alguém sempre é rondado pela morte, mas ela não é o assunto principal porque Ronaldo gosta mesmo é de falar de pessoas. Na contra-capa está escrito: "A justiça de Deus tarda, mas não falha. A dos homens tarda e falha. Com firmeza e coragem, ela podia ser apressada. O nome de Oliveira estava registrado no livro dos homens, na paróquia onde foi batizado. Honrasse o livro ou nunca mais voltasse para casa "... só por aí, percebe-se a força do texto.

No final de 2008, ele lança seu primeiro romance Galiléia. A história de três primos que retornam à Fazenda Galiléia para o aniversário do avô Raimundo Caetano, já moribundo. Durante a "travessia", os personagens vão se desnundando, mostrando em uma espécie de crise de identidade, suas faces dúbias e conflituosas. Eles, que não tinham mais a intenção de voltar ao lugar, vêem-se obrigados a revolverem da poeira, circunstâncias que pensavam estarem enterradas. Até as lembranças da despedida, do abandono da região, surgem na poeira também. As angústias da família, adormecidas ao longo dos anos... a volta radical, inesperada, provoca o resgate de tudo que andava perdido desde que deixaram a cidade e foram ganhar a vida longe dali.

Quando chegam, vários segredos da familia são expostos, adultério, assassinato, estupro... afloram sentimentos em longos diálogos, emaranhados em experimentações de linguagem, inclusive visuais. Ronaldo se contrapõe ao estereótipo de lugar isolado, do sertanejo perdido num mundo onde o tempo não passa e onde a dor e a tristeza têm morada. O moderno e o antigo se fundem a todo momento, nas lembranças, nas conversas, nas citações de internet e brinquedos tecnológicos, no existencialismo de Freud, que aliás, tem papel fundamental no livro. A violência de Galiléia remete à obra de Albert Camus. E é dessa violência que eles tentam fugir quando saem de lá e que são obrigados a confrontar quando voltam.

Como eu gostaria de ser cineasta... acho que ele escreve com a cabeça no cinema. Cada história de Ronaldo Correia de Brito daria um belo filme. Por outro lado, o sertanejo em sua obra, que diga-se não é exclusivamente regionalista, transcende o sertão. Ainda que ambientados assim, são dramas possíveis também nos centros urbanos. Tenho dúvidas se alguém saberia traduzir para o cinema, dessa forma tão subjetiva, sem cair no mesmo lugar-comum de filmes épicos já conhecidos.

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